terça-feira, 27 de março de 2012

Fragilidade



Tentava á todo custo não sentir.

Já havia experimentado a sensação e, numa visão geral da coisa, não gostara nada. Era tudo muito confuso e requeria um tipo de entrega ao qual ela não se sentia pronta.
Em outras palavras, achava que amar era para os fortes.
Tentara, uma vez. Quando as coisas eram todas abertas e parecia certo - ela sentia que era certo. Só que aquele cor de rosa tomou tons de chocolate e de cinza, e de repente ela não tinha mais certeza. E acabou fazendo tudo o que não queria fazer: magoou alguém. Ela se importava demais com as pessoas e sabia disso - só não conseguia mudar esse fato.
Então resolveu desistir.

E aquelas coisas que confundem a gente estavam lá, mais uma vez tentando confundi-la.
Ao mesmo tempo em que não queria mais sentir, achava incrível a ideia de que alguém sentisse e ela compartilhasse o sentimento. Sim, era mesmo uma confusão só.
O problema era que todo mundo ao seu redor sentia. E quando todo mundo ao seu redor sente e você não, sentir parece uma necessidade, quase tão importante quanto respirar. E pode estar escondido nisso, não pode? O simples ato de respirar - ou a falta de respiração -, pode denunciar um sentimento. Não é?
Ela tentava se convencer que não.
Porque seria inusitado - e é improvável. Então porque diabos sua mente dizia que era possível?
Porque "ela pensava com o coração e sentia com o cérebro".

Resolveu parar de tentar não sentir. Só pra ter certeza - qualquer uma.

sábado, 17 de março de 2012

Superficialidade


Quando perguntada sobre o que ela sentia ao beijar todos aqueles meninos desconhecidos em uma festa, ela olhou pra parede pintada de azul e respondeu, seca: "Nada".
Ao insistirem na pergunta, achando que a resposta não fora satisfatória, ela levantou da cama e parou com o indicador apontado para o coração.

Eu não o sinto perder uma batida. Porque não significa nada pra ninguém, mas tá todo mundo bem com isso.

Quando confrontada sobre sua opinião imatura, balançou a cabeça sorrindo. "Ninguém dá a mínima". E apesar da verdade universal em suas palavras, nada justificava o que ela fazia.
Porque quando ela partia após um beijo vazio, deixava pra trás corações partidos. E nem ao menos sabia disso.

domingo, 4 de março de 2012

Sobre maturidade


Eu me sinto brincando de cabo de guerra: de um lado o meu pai, do outro a minha mãe. E o que sobra pra mim é a corda grossa e áspera. Não que eu me veja assim, mas é que ambos disputam minha atenção, meu afeto, como se eu fosse um objeto e não sentisse dor pelos puxões. Ambos me disputam pra provarem á si mesmos e um ao outro que são mais poderosos e estão mais certos. Mas ninguém está certo, afinal.
Não é como se eu não estivesse triste - eu estou -, nem como se eu não quisesse aquela família de volta. Mas eu entendo que acabou e que eu amo os dois da mesma forma. Quem não entende isso são eles. E depois a criança da casa sou eu.
Eu não disputo a atenção ou o carinho de nenhum dos dois. Porque eu já os tenho. E a quantidade de carinho e atenção que eu tenho já é o suficiente. Pra mim. Mas adultos nunca estão satisfeitos com nada, é impressionante.