terça-feira, 15 de julho de 2014

Mania de rotular



  De que são compostos os pequenos gestos?
  Tenho em mente que eles deveriam estar classificados na categoria "coisas fofas". Porque são pequenos e geralmente, pra ser fofo, algo só tem que ser pequeno. O engraçado é que são desses tipos de coisas pequenas que causam grandes efeitos, como aquela garota pela qual você se apaixonou que só tem um metro e meio. E são poucas as "coisas fofas" que causam grandes efeitos - como alguém te dizer á meia noite de um dia cansativo que não quer que você durma pra poder continuar ouvindo sua voz. Beijo na testa poderia ser, mas não é porque esse simples gesto, em qualquer circunstância, significa muito. Coisas fofas, em geral, são rasas.
  Não podendo de forma generalizada serem caracterizados como "coisas fofas", os pequenos gestos formam uma categoria própria, cujo título é seu próprio nome.
  Os clichês abraços mais longos que o necessário, cafuné, dividir chocolate, esperar (sob qualquer circunstância) e o já citado beijo na testa - em segundo lugar pra mim, porque sou apaixonada por abraços -, são exemplos de pequenos gestos.
  Mas também entender uma piada suja no ato, um aperto fora de hora na cintura, segurar os problemas de alguém por alguns minutos e depois trancafiá-los no mesmo lugar onde se guarda a dor de perder alguém que se ama; ouvir. Não precisa ser inocente pra ser pequeno gesto, porque eles vão além da superfície e lá no fundo ninguém é inocente.
  Existem as excessões, quando um pequeno gesto também pode ser uma coisa fofa. Uma ligação depois de uma viagem para se saber se chegou bem, por exemplo. Mas é uma coisa fofa, portanto, rasa. E coisas rasas (in)felizmente, não funcionam comigo.

"Basta-me um pequeno gesto, 
feito de longe e de leve, 
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve..."
Cecília Meireles

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Sobre raves e pecados



Dia desses fui numa festa, dessas que tem duração de doze horas e sua mãe reza todos os dias pra que você não peça pra ir.
Dessas que geralmente você cria mil e uma expectativas; já sai de casa listando silenciosa no banco do carro as coisas que você quer fazer ou fazer acontecer. Quem você sabe que vai encontrar que vai fazer da sua noite relevante, quem vai vir de fora da cidade pra trazer aquele ar de novidade.
E mesmo que suas expectativas não tenham se concretizado quando o sol surgir no horizonte, mil e um motivos diferentes te fazem crer que no fim das contas a festa valeu à pena.
Conheci um garoto nessa festa.
Tudo acaba sendo sempre sobre isso, sobre conhecer alguém que te afeta mais do que outra pessoa já afetou, que insiste em permanecer na sua mente dias depois do acontecido. E sinto como se fosse um sentimento unilateral porque não sou Edward Cullen, ainda não sei ler mentes - muito menos à distância.
Enfim; conheci esse garoto e nós ficamos.
Essa palavrinha de definição estranha e não muito concisa que me incomoda, mas mesmo sem significado é a única que me convém usar, porque é a única que define o que de fato aconteceu. Poderia dizer que nos beijamos, mas não foi só isso; poderia dizer que nos envolvemos, mas não chegou à tanto. Então ficamos está de bom tamanho, vai ter que servir como meio termo.
Aí você me diz: "Mas foi só mais uma festa, só mais um garoto. Tantos outros antes desse que significaram algo e você não escreveu nada sobre eles; por que isso agora?". Porque esse texto não é sobre o garoto que eu conheci na festa que mamãe não queria que eu fosse. Ele tem bastante participação nisso, ok, mas o spotlight não está nele hoje.
Não durou nem três horas direito, mas significou mais do que muitos. E isso, mais do que ele não ter perguntado meu sobrenome ou meu número, me irrita mais do que qualquer coisa.
Foi tudo inusitado desde o começo, porque quem saiu da inércia e foi lá ver se valia à pena fui eu. Talvez esse tenha sido o meu erro, porque a curiosidade de saber o que ele estava pensando me corroeu - ainda me corrói. Só que aí ele correspondeu à tudo de uma forma tão intensa que esse incômodo abrandou por um tempo. Até eu abrir os olhos algumas horas depois e ainda conseguir ouvir o evento rolando.
Agora diga-me: qual a lógica de tudo isso? Qual a lógica da intensidade, dos sorrisos, dos elogios, dos puxões? Qual a lógica de eu ter a oportunidade de experimentar tudo isso (e gostar imensamente) se vai ser só aquela vez? Não existe uma explicação plausível pra isso. É como uma tortura, mesmo que deliciosa, vinda dos céus pra nos punir por aproveitarmos dos prazeres da carne. É experimentar um pedaço de chocolate e querer a barra inteira, mas descobrir que acabou. É frustrante ao extremo e eu estou repetindo à mim mesma desde cedo que vou parar. Tou velha pra isso.
Mas é uma delícia. É uma delícia conhecer alguém pela primeira vez e desviar o olhar pra não deixar claro o tamanho do seu interesse. É uma delícia a sensação do primeiro toque, do primeiro beijo, de ter algo pelo qual se anseia muito. A gente realmente nunca sabe se vai durar uma noite ou uma vida e também não sabe quando vale à pena descobrir. E tentar só por tentar também é uma delícia. Pode ser que doa, mas a dor é pequena porque não tem como se apegar firmemente à algo que foi bom, mas superficial. E se não se tem certeza quanto ao superficial, é só lembrar de que foi uma festa e que ninguém se achou no facebook, mesmo que tenham procurado com afinco.
Como parar? O pecado só é assim chamado porque é bom demais pra ser certo e tudo o que é errado não é monótono. Eu prefiro continuar pecando e tendo histórias pra contar.
Minha vida seria chata sem elas.