quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Lado escuro da calçada



Podia ter outro apagão.
Se eu desse sorte, ele estaria por perto. E só porque eu sou muito sortuda mesmo, Italo iria lá em casa com ele. A gente sentaria na calçada dos meu vizinhos e ficaríamos conversando (eu, Gabriel, Italo, ele e Felipe Matheus, que viria de penetra, mas seria bem vindo). Mamãe ficaria preocupada porque a rua estaria um breu e isso seria perigoso, mas eu me sentiria a pessoa mais segura do mundo com eles por perto.
De início, eu sentaria longe dele, para não levantar suspeitas ou insinuar algo cedo demais. Em um certo momento, eu levantaria e entraria para beber água, iluminando o caminho com o celular. Quando eu voltasse, magicamente a ordem das pessoas sentadas na calçada teria se alterado, e o único lugar vago seria do lado dele. Disfarçando meu contentamento, eu sentaria lá, me encolhendo toda porque já seria 00:00 e estava ficando frio.
Nós continuaríamos conversando sobre o episódio de Supernatural que eu perdera e eu daria um tapa nele quando ele dissesse que tinha sido incrível e ameaçasse me contar o final. Nisso, ele seguraria minha mão pra me impedir de batê-lo mais um pouco.
Só que ele não a soltaria.
A conversa continuaria, totalmente alheia ao fato de que minha mão estava entre a dele e ambos de repente havíamos ficado quietos.
De dentro do quintal, Robertho sairia com fósforos e aquelas velas de aniversário que parecem mini fogos de artifício, parecendo ter 15 anos de novo. E quando todo mundo levantasse pra brincar com as velas, ficaríamos lá sentados, um do lado do outro, com as mãos juntas, sem nos falar, como no show, onde não foram necessárias muitas palavras.
Então, do nada, ele sussurraria: "senti saudades", e meus olhos brilhariam mais do que as velas acesas nas mãos dos meninos. Eu não responderia nada, porque ás vezes as palavras nos faltam e isso é uma coisa boa. Eu só o olharia e aproximaria nossos rostos.
A luz só voltaria no dia seguinte, depois de passarmos a madrugada toda na rua.

domingo, 12 de agosto de 2012

Lembrando de Domingo


Eu queria te confrontar.
Perguntar o porque da sua demora e o porque da rapidez em ter ido embora. O porque de tanta intensidade se logo depois viria o completo descaso.
Eu te colocaria sentado no sofá da sua sala e contaria meus planos para aquela quarta-feira que nunca veio.
Eu te encontraria "na metade do caminho" - em frente ao Pet Shop, que no tal horário do encontro já estaria fechado. Você me perguntaria sobre "o homem da minha vida" e eu responderia que meu sobrinho estava no berço, dormindo, e que, naquele momento, você era o homem da minha vida.
Então você ficaria sem graça e mudaria de assunto até chegarmos a entrada do condomínio, onde você faria uma piada sobre ja ter nos apresentado - e não teria a menor graça, mas eu riria assim mesmo. Andaríamos pelo "labirinto" até o seu prédio e você me perguntaria se eu me lembrava qual era. Eu pararia na frente do seu apartamento e você me abraçaria de lado enquanto empurrava a porta que mais uma vez deixara aberta, sussurrando um "menina esperta".
A luz da sala estaria acesa, e eu daria um jeito de te convencer a não ir pro quarto, eu te convenceria a sentar comigo no sofá cor de sorvete de creme porque eu queria te mostrar uma coisa. Você pensaria besteira e ganharia um tapa. Mas me puxaria pro seu colo enquanto eu encaixava os fones de ouvido no celular.
"Divide comigo. Quero que você ouça essa música porque acho que tem tudo á ver com o que rolou domingo" - eu falaria enquanto colocava "Vem Cá" pra tocar. E ficaríamos daquele jeito, aninhados um no outro, seus braços me apertando, minha cabeça encaixada embaixo do seu queixo, até a música acabar. E você sorriria pra mim quando acabasse concordando que a música era uma tradução literal da gente. Beijaria a ponta do meu nariz e de repente decidiria que ficaríamos ali na sala mesmo, assistindo The Big Bang Theory e tomando chocolate quente.
Então minha mãe me acordaria porque tudo isso não poderia passar disso mesmo, um sonho.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Mas eu nunca vou saber como teria sido


Eu queria ter aproveitado mais o caminho longo e cheio de falhas que percorremos até a minha casa. Queria ter falado as verdades entaladas na minha garganta, mais ou menos na metade do caminho. Eu queria ter recebido seus lábios em minha testa mais vezes do que apenas poucas. Eu queria ter parado embaixo daquela árvore e ficado abraçada contigo mais tempo do que dez segundos.
Eu queria que aquela esquina se transformasse no meu quarto e que você me abraçasse forte e nunca mais me deixasse ir. Queria poder estender a noite para um manhã preguiçosa. Queria que você não tivesse que ir.
Eu queria seus dedos entre os meus outra vez. Queria a sensação de que pertencemos um ao outro de volta. Eu queria todo aquele cuidado de novo. Eu queria a sua mão na minha cintura ou no meu quadril; não importa, eu queria as suas mãos em mim. Eu queria a intensidade mais uma vez e a dor, que naquela única vez foi reconfortante.
Eu queria parar de olhar as fotos, porque elas me dão muita saudade. Eu queria não ter vontade de chorar toda vez que passo pela avenida de caminhos falhos ou escuto Holes Inside. Eu queria nunca ter chorado.
Mas se existisse uma forma de voltar no tempo, haveriam guerras sobre quem a possuiria.
Se existisse uma borracha que apagasse o passado, valeria mais que um diamante, então eu não poderia compra-la.
Se existisse um lápis que o reconstruísse, eu nos faria perfeitos, e vai ver essa coisa de gostar está escondida na imperfeição.
Por um lado tudo isso não existir não é ruim. É um método cruel para tentarmos aprender á lidar com nossos próprios problemas e escolhas.
Você quer tentar?

"Quero você nu na minha cama
ou com roupa mesmo
E nem precisa ser na cama
só precisa ser comigo."

Surgiu no sábado, mas só tomou forma no domingo á noite. Depois de viagens com paisagens monocromáticas e músicas deprimentes.
Deve ser porque "o dia" tá chegando.
Espero que ele me traga boas lembranças.

domingo, 6 de maio de 2012

All I Want


Para Natália Vasconcelos

Amigas que não sejam falsas. Relacionamentos que tenham um futuro. Alguém que esteja aqui se eu precisar que ouçam meu silêncio.
Que a vida pare de apresentar problemas e me mostre soluções. Que ela me dê mais motivos pra sorrir também, porque eles tem sido escassos.
Um coração extra pra aguentar toda a dor desse. De preferência reforçado, pra evitar os mesmos erros - porque eu sou meio masoquista.
Mais pessoas com a cabeça feita, porque ás vezes eu me sinto no Jardim de Infância.
Um fim de dia em que eu possa suspirar de cansaço e sorrir porque o dia foi bom.
Menas lições de moral; já aprendi o suficiente pelo resto do ano.
Alguém pra beijar a minha testa e sorrir com a alma quando olha pra mim - alguém que me dê motivos pra sorrir junto.
Pessoas que não forcem amizade - vai ser falso na puta que pariu.
Um fone de ouvido que dure.
Uma barra de chocolate Wonka.
Um anel de cobra.
Um sorriso só meu.
Um SMS.

"São só mais motivos pra chorar."

quarta-feira, 2 de maio de 2012

01 de Abril


"If it hurt this much, then it must be love..."

  Abri a geladeira pra pegar um pedaço de chocolate com amendoim e o telefone tocou. Seu nome piscava na tela, mas por pouco tempo, porque quando eu ia atender você desligou. Daí eu soube que você tinha chegado. Sorri, empurrando a porta de metal branca e tentando não parecer animada demais - embora eu realmente estivesse. Quando eu saí pela porta de madeira em direção ao quintal e depois ao portão, te vi através das grades do outro lado da rua, segurando o celular. Mordi o chocolate antes de sair.
  Você estava nervoso. Tinha medo que meu pai aparecesse e quisesse - imagine o absurdo! - esganar você. Mas ele não faria isso se aparecesse, porque eu o olharia e sorriria - e ele não esganaria o motivo da minha felicidade.Quando eu te abracei debaixo da árvore que um dia já foi bem maior, senti seu perfume, lembrei-me de sábado e quis te beijar. Mas não quis assustá-lo com uma de minhas atitudes impensadas. Reprimi minha vontade.
  Então iniciamos uma conversa paralela e eu só pensava na noite anterior (no caminho de mãos dadas, nos beijos na testa ocasionais e na despedida). Tentei continuar reprimindo minha vontade, mas não consegui por muito tempo, porque você me beijou e eu correspondi com o máximo de entusiasmo que me sobrara, já que você insistia em tirar meu fôlego.
  E aquela sensação gostosa estava lá na minha barriga outra vez, como nos outros sábados. Eu não tinha um nome pra aquilo - e chamar de borboletas é muito piegas -, então só chamei de "frio" (que pra mim é coisa boa, então tinha que ter á ver com você). E a sensação continuou lá quando você apertou minha cintura, e depois quando deixou um beijo solitário em meu pescoço. E quando eu te olhava e sorria, o "frio" passava por todo o meu corpo, da ponta do pé, pela espinha até o último fio de cabelo.
  E eu (nós) sabíamos que era errado, mas parecia tão certo! Por algumas horas você seria exclusivamente meu, sem olhares de censura ou vergonha. Sem culpa. E eu já era sua, só não tinha consciência disso. Mas é tudo bem maior do que "eu e você". Na verdade, é tudo imensamente maior. A gente se importa demais com os sentimentos alheios, e segue nesse triângulo amoroso proibido com o máximo de cautela, pra que ninguém saia machucado.
  Mas machucada eu já estou.
  E tudo estava bem enquanto eu estava em seus braços. Mas aí meu relógio de pulso bateu 23h e você sussurrou "Tá tarde", como se não quisesse realmente ir embora, mas tivesse que ir (ou pode ser uma maquiagem básica da minha mente em cima das lembranças; de qualquer jeito, prefiro acreditar que foi assim mesmo). E eu tentei te convencer á ficar, mas só consegui adiar sua partida por mais uns vinte minutos. Você iria embora no dia seguinte, de manhã. Então te acompanhei até a esquina e você se foi - me deixando pra trás sem a mínima perspectiva de que te veria de novo tão cedo.
  Tento descobrir se é certo esquecer esse Primeiro de Abril desde então.

"Deixá-lo ir foi, de longe, a coisa mais dolorosa que fiz"

Pra J.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Reflexos De Um Sábado Á Noite





Eu: on line uma hora dessas?
Melhor amiga: muitas coisas pra resolver!
Eu: tudo o que tenho pra resolver está dentro de mim.
Melhor amiga: sei bem... Tá melhor? Pensou mais?
Eu: pensei. Mas todo pensamento volta pro mesmo ponto de partida: a namorada no colo dele e o olhar que significou tudo e nada ao mesmo tempo.
Melhor amiga: put'z, queria tanto poder ajudar...
Eu: eu também queria poder ser ajudada. Mas a única coisa que me ajudaria agora seria uma explicação, aparentemente ele não está com vontade de dá-la pra mim.
Melhor amiga: pois é, e sem elas você vai continuar pensando e pensando, infelizmente...
Eu: o problema não é ficar pensando o tempo inteiro nisso - porque meio que dá pra levar, por enquanto -, o problema é, como sempre foi e tem sido, essa porra de distância que dificulta ainda mais as coisas.
Melhor amiga: caralho, a distâcia, sempre ela! Ela que fode com todas as coisas!
Eu: fode MUITO! Porra, ele tinha que morar tão longe?! Não podia morar logo ali na outra rua, perto dos primos, perto de mim?
Melhor amiga: sempre assim, sempre do mesmo jeito!
Eu: nem me fala! E as coisas que a gente conversou na merda do show do dia 31 naquela MERDA daquele sambódromo estão se concretizando. Porque eu estou me envolvendo mesmo não querendo (e nem podendo!) e ele não, porque ainda desfila por aí com a namorada.
Melhor amiga: é o sambódromo trazendo alegrias e tristezas ao mesmo tempo...
Eu: e eu queria poder dizer o mesmo que Matheus: "O que acontece no sambódromo, fica no sambódromo". Concordo que algumas coisas queria deixar abandonadas por lá, mas algumas parecem essenciais que eu lembre.
Melhor amiga: e são. Porque essas são "coisas" que não se dá pra esquecer... Nem em uma semana ou um mês.
Eu: falando em "um mês", hoje faz um mês desde a última vez que a gente ficou.
Melhor amiga: ai meu Deus, ela conta! Liga não, eu também conto!
Eu: eu não conto exatamente... Na verdade, foi você quem me lembrou! Mas é que esse tipo de coisa fica guardado, a gente simplismente não esquece.
Melhor amiga: isso! E quando aparece algo - ou alguém - falando sobre, a gente lembra imediatamente.
Eu: tá foda de aguentar, Gabi.
Melhor amiga: sempre é foda de aguentar! Mas de duas uma: ou você arrisca de colocar tudo o que você sente pra fora ou você guarda isso o quanto puder. Sinceramente, eu fico com a segunda opção!
Eu: agora que você me deu o benefício da dúvida, colocar pra fora parece viável, mas humilhante.
Melhor amiga: e é! Uma vez - uma única vez - eu fiz isso. Me arrependo até hoje!
Eu: nunca fui de demonstrar sentimentos - na verdade, acho que nunca cheguei realmente á sentir -, mas agora que eu chorei, posso tentar ignorar, mas sinto que aqui dentro é de verdade.
Melhor amiga: a gente sempre tenta, mas é impossível de segurar... Mas fazer o quê se nem tudo o que a gente deseja é fácil?
Eu: vou dar uma de rainha do drama agora, mas Gabi, pra mim nunca parece ser fácil.
Melhor amiga: Te entendo. Uma hora passa...

"O que obviamente não presta sempre me interessou muito."

Texto logicamente adaptado. É que eu queria muito colocar algo sobre isso aqui, e essa conversa civilizada com Gabi Manhães me pareceu perfeita. Tá maquiado - com certeza -, mas se você prestou atenção, percebeu que tem muita gente implicada nessa história que pode se complicar. As coisas não se tornam mais fáceis depois de escritas, se tornam permanentes. Daí minha cautela. Mas se eu e ela sabemos quem é, tá de bom tamanho, é isso que importa. Á você que leu, se se questionou, me pergunta.

sábado, 28 de abril de 2012

Saudade



Lembra daquela vez, uns dois anos e meio atrás? Eu lembro. E sinto uma falta daquele tempo... Sinto falta do jeito como parecia que só existia a gente - o resto do mundo eram figurantes sem importância. Era você e eu sem desculpas, sem vergonha. Com poucas palavras que me faziam pensar no quanto eu era sortuda por te ter do meu lado. Poucas palavras que me faziam pensar no quanto você era fofo do seu jeito. Mas você nunca esteve do meu lado, não do jeito que eu queria. Porque mesmo com o seu comportamento esquivo e infantil, eu queria poder acordar de manhã e, sem nem abrir os olhos, sorrir por saber que você estaria do meu lado. Eu queria poder ter um dia difícil e voltar pra casa sabendo que você estaria lá pra me apoiar. Mas tudo fica na vontade quando eu lembro que nunca tive você de verdade. Bizarro, não? Fico me perguntando se só eu senti o frio na barriga, a vontade infinita de não te deixar ir e o arrepio na espinha. O problema é que se você sentiu não deve nem lembrar. Então eu nunca vou saber. Incrível como o ser humano hoje em dia não tem muito valor. Incrível.

terça-feira, 27 de março de 2012

Fragilidade



Tentava á todo custo não sentir.

Já havia experimentado a sensação e, numa visão geral da coisa, não gostara nada. Era tudo muito confuso e requeria um tipo de entrega ao qual ela não se sentia pronta.
Em outras palavras, achava que amar era para os fortes.
Tentara, uma vez. Quando as coisas eram todas abertas e parecia certo - ela sentia que era certo. Só que aquele cor de rosa tomou tons de chocolate e de cinza, e de repente ela não tinha mais certeza. E acabou fazendo tudo o que não queria fazer: magoou alguém. Ela se importava demais com as pessoas e sabia disso - só não conseguia mudar esse fato.
Então resolveu desistir.

E aquelas coisas que confundem a gente estavam lá, mais uma vez tentando confundi-la.
Ao mesmo tempo em que não queria mais sentir, achava incrível a ideia de que alguém sentisse e ela compartilhasse o sentimento. Sim, era mesmo uma confusão só.
O problema era que todo mundo ao seu redor sentia. E quando todo mundo ao seu redor sente e você não, sentir parece uma necessidade, quase tão importante quanto respirar. E pode estar escondido nisso, não pode? O simples ato de respirar - ou a falta de respiração -, pode denunciar um sentimento. Não é?
Ela tentava se convencer que não.
Porque seria inusitado - e é improvável. Então porque diabos sua mente dizia que era possível?
Porque "ela pensava com o coração e sentia com o cérebro".

Resolveu parar de tentar não sentir. Só pra ter certeza - qualquer uma.

sábado, 17 de março de 2012

Superficialidade


Quando perguntada sobre o que ela sentia ao beijar todos aqueles meninos desconhecidos em uma festa, ela olhou pra parede pintada de azul e respondeu, seca: "Nada".
Ao insistirem na pergunta, achando que a resposta não fora satisfatória, ela levantou da cama e parou com o indicador apontado para o coração.

Eu não o sinto perder uma batida. Porque não significa nada pra ninguém, mas tá todo mundo bem com isso.

Quando confrontada sobre sua opinião imatura, balançou a cabeça sorrindo. "Ninguém dá a mínima". E apesar da verdade universal em suas palavras, nada justificava o que ela fazia.
Porque quando ela partia após um beijo vazio, deixava pra trás corações partidos. E nem ao menos sabia disso.

domingo, 4 de março de 2012

Sobre maturidade


Eu me sinto brincando de cabo de guerra: de um lado o meu pai, do outro a minha mãe. E o que sobra pra mim é a corda grossa e áspera. Não que eu me veja assim, mas é que ambos disputam minha atenção, meu afeto, como se eu fosse um objeto e não sentisse dor pelos puxões. Ambos me disputam pra provarem á si mesmos e um ao outro que são mais poderosos e estão mais certos. Mas ninguém está certo, afinal.
Não é como se eu não estivesse triste - eu estou -, nem como se eu não quisesse aquela família de volta. Mas eu entendo que acabou e que eu amo os dois da mesma forma. Quem não entende isso são eles. E depois a criança da casa sou eu.
Eu não disputo a atenção ou o carinho de nenhum dos dois. Porque eu já os tenho. E a quantidade de carinho e atenção que eu tenho já é o suficiente. Pra mim. Mas adultos nunca estão satisfeitos com nada, é impressionante.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Um dia de Janeiro

"Por que será que toda vez que eu vou falar contigo parece que você vai me beijar?" - mexia na ponta do cabelo presa por uma borracha azul no fim da trança; os olhos focavam uma menininha de rabo de cavalo no balanço de madeira. A mente tranquila e livre de expectativas vagava por sensações parecidas com um banho de mar e o esforço em não parecer ansiosa ou agitada demais. O que, no final das contas era um desafio já que se sentia exatamente assim.
"Porque talvez a minha vontade seja mesmo essa" - as mãos de dedos compridos e finos com unhas roídas se escondiam nos bolsos da calça jeans; os olhos miravam uma barraquinha de maçãs do amor bem próxima, mas era só um pretexto porque ela estava na mesma direção. Mas ao perceber que com sua resposta firme e sincera ele ganhara sua atenção, desviou correndo enquanto sentia o peso do olhar dela sobre seus ombros. De repente sentiu-se constrangido, como se tivesse revelado suas vontades á um estranho qualquer na rua. Mas se a envolvia afinal de contas, não lhe deveria ser algo tão secreto assim, desse jeito não lhe parecia certo.
Uma mecha solta do cabelo castanho cismava em lhe atrapalhar a visão. Vendo que ela dava sinais de que se irritaria logo, logo com aquilo, ele tirou a mão direita do bolso e levou a mecha rebelde para trás da orelha que tinha dois lacinhos dourados nos lóbulos. As bochechas, antes pálidas pelo forte vento, agora adquiriam um rosado similar ao de um blush; em outra palavras, ela estava irresistivelmente fofa.
Demorou mais do que ele julgou normal pra que ela reagisse de alguma forma. Só estava o seu corpo lá, mirando nada em especial e caminhando na direção de um banco de concreto. Sua alma, mente ou qualquer coisa do tipo não pareciam estar ali. Estavam perdidas em algum lugar dentro dela. Ele sentou, tirando as mãos dos bolsos e esfregando uma na outra. "Como ele sempre faz", ela recobrou a lembrança dos tempos alegres quando eles dividiam um toco de madeira ao redor da fogueira na fazendo da família. Parou na frente dele olhando o rosto ansioso e curvando os lábios discretamente com isso. Se ele se sentia nervoso, devia experimentar estar dentro dela.
Sem que ela percebesse, sem que a ideia sequer passasse pela sua cabeça, os braços fortes e com veias saltadas rodearam a cintura marcada pelo cinto marrom e rosa trançado, a trazendo pra ele. Entre a surpresa e a aproximação misturadas á ansiedade, ela tropeçou nos próprios pés, fazendo com que ele firmasse o aperto e a proximidade se tornasse confortável. Mesmo sentado, a cabeça dele batia na altura da dela e a respiração dos dois se misturava nos centímetros que os separavam. Os olhos dele prendiam a atenção dos dela que estavam marcados por uma linha fina e escura acima dos cílios inferiores. A mecha teimosa voltou ao seu rosto.
"Vai me permitir finalmente fazer isso?" - enquanto as palavras doces tocavam os lábios rosados fazendo com que ela os entreabrisse, a mesma mão que afastou a mesma mecha teimosa se postou em sua nuca, aguardando uma resposta. Sua expressão demonstrava a certeza de que ela diria sim, seu íntimo queria muito que ela dissesse sim. E a resposta definitiva chegou de uma forma muda: pelos olhos escuros e com cílios curvados. Ela sorriu por eles, sorrindo com a alma, desejando mais do que tudo que se aquilo fosse um sonho, que nenhum despertador inconveniente a acordasse. Ele sorriu com os lábios, entendendo o que aquele olhar queria dizer: libertação, quebra de regras e a certeza de que era o começo de uma história complicada, mas que valeria á pena correr o risco.
E com antecipação correndo como sangue em suas veias, os lábios grossos dele encostaram de leve nos dela e os olhos de ambos se fecharam.

Texto escrito em um fim de semana bastante agitado e com rascunho de 24 páginas no celular. Baseado em fatos "quase" reais, ou o mais próximo do que minha mente insana imaginou que fosse real. Os personagens pelo menos são reais, e essa é a prova concreta de que minha mente é perturbada, mas nem tanto. Mas por culpa dele tenho hora marcada na analista, então, se me dão licença...