sábado, 28 de novembro de 2009

Nuvens cinzas

    As gotas caiam no vidro da janela do quarto. Estava chovendo. O tipo de chuva que quando cai, não se tem noção de quando vai parar de cair. É estranho pensar que existem pessoas que não gostam da chuva. A chuva é mágica. É como, chorar quando se está triste ou entrar no mar pra "lavar a alma". É isso que a chuva faz. Ela carrega tudo de ruim que teima em ficar presente. As lembranças ruins, sonhos ruins, tempos ruins.

    O som das gotas de chuva caindo no chão me acalma. É parecido com as lágrimas que meus olhos teimam em deixar cair. Mas não são comparadas á toda mágica que envolve a ação que é chover. Porque as pessoas não costumam gostar da chuva. Elas gostam do sol brilhando alto no céu, gostam de calor, não de nuvens cinzas e tempo fechado. Mas eu gosto. Mesmo que isso não importe tanto.

    Eu gosto do cheiro de terra que fica quando começa á chover, eu gosto das árvores pingando e de me sentar e ficar horas olhando a chuva. Eu gosto de andar no asfalto molhado. Eu gosto de fechar os olhos e só ouvir. Ouvir o som da chuva. Eu gosto de tomar banho de chuva. De sentir as gotas frias sobre a minha pele. É como pular de bungee jumping. É adrenalina. É vontade de fazer milhões e milhões de vezes. Porque é uma sensação indescritível.

    E a chuva me encanta como nada mais faz. Porque ela é perfeita por si só. Porque todas as coisas mais indescritíveis acontecem quando chove. Porque quando eu me casar, eu quero que esteja chovendo. Quero beijar na chuva. Quero que a chuva presencie todos os momentos importantes da minha vida.

    Porque aí, eles serão eternizados.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Incertezas.

   Eu não precisei de mais nada. Só te ver outra vez. Bastou eu saber que era você, tão próximo á mim, pra eu lembrar de tudo que já havia esquecido. Completamente tudo. Bastou eu olhar nos seus olhos pra saber que você também não tinha esquecido. Nunca esqueceu. E bastou eu ter você perto de mim de novo, pra ter certeza de que você faria tudo outra vez. E eu não moveria um dedo pra impedir.


- Não, por favor, para- pedi quando senti você mais próximo a mim, coloquei minhas mãos no seu peito-, não quero fazer isso outra vez.
   Foi automática a sua cara de espanto. Eu sabia que você não esperava por uma negação, ainda mais vinda de mim, mas também sabia que não ia desistir.
- Por que?- você me perguntou com os braços envolvendo minha cintura.
   Você sabia a resposta, e era inteligente o suficiente para saber que eu não queria dizer. Mas parece que você queria ter certeza, só pra continuar caminhando com o mesmo erro nas costas depois, mesmo sem ligar. Queria ver meus olhos brilhando e minha voz rouca tentando segurar lágrimas que viriam logo depois. Parece que você queria me ver sofrer.
   E eu ignorei tudo isso, quando desviei o olhar de você e disse:
- Não quero fazer isso tendo a certeza de que você vai embora depois.
   Fechei meus olhos e respirei fundo. A ardência em minha garganta denunciava o choro que viria logo, logo, caso não saísse de perto de você. Mas você não me deixaria sair.
- Eu não faria isso- você disse me encarando-, sabe que nunca faria isso outra vez.
   Ri, mesmo que o momento não fosse propício á isso.
- Você sempre diz a mesma coisa- deixei escapar.
   Você permaneceu sério e por um minuto eu pensei que você tinha finalmente acreditado nas minhas palavras. Mas me enganei outra vez.
- Se eu fosse fazer isso outra vez, não estaria aqui.
   Suspirei, seria inútil discutir com você. E seria inútil tentar reverter uma situação irreversível. E o pior de tudo, é que sempre seria assim, e eu sabia disso.
- Eu não consigo...
   Minhas palavras morreram assim que tive certeza de que o resto da frase faria você ir pra longe de mim. E por mais que eu estivesse tentando fazer isso á horas, sentiria sua falta. Eu só não queria admitir isso.
- Não consegue o quê?- você me encorajou.
- Não consigo ser sensata perto de você.
   Você sorriu e me encarou mais uma vez. Era inacreditável o modo como você ficava impassível numa situação dessas.
   Senti o seu abraço afrouxar e numa atitude impensada, segurei seus braços impedindo que você fosse. Seu semblante era confuso, e a minha cabeça idem.
- Por que fez isso?- você me perguntou sem tirar seus braços de mim, e eu agradeci mentalmente por isso.
   A ardência em minha garganta voltou e eu tive certeza absoluta de que choraria mesmo se tentasse prender as lágrimas. Senti meu rosto molhar devagar enquanto uma lágrima caia e, muito mal, consegui ver seu rosto confuso se tornar uma careta.
   Você moveu seu dedão até a minha bochecha e enxugou a minha lágrima, numa cena dígna de filme. E me abraçou.
- Eu sei que foi imaturo da minha parte, sei que te deixei triste e me arrependo disso. Mas eu não conseguia falar com você depois, só não me pergunte porque.
   O encarei e entreabi meus lábios. Era sempre assim e por mais que quisesse, não conseguiria evitar. Ainda pude ver você chegando perto de mim antes de me beijar. Não te impedi, e senti você conseguindo o que queria desde o começo. Pra depois simplesmente ir embora.
   Porque por mais que eu tentasse acreditar em você, você sempre ia embora no final.


___________________

Baseado em fatos reais.