Por Yasmin Albuquerque
Oito e quarenta e cinco da noite. Só o barulho do motor incomodava o ouvido das pessoas dentro do ônibus, saindo da praia em direção á cidade. Uns dormiam, cansados do Carnaval. Outros, só olhavam pra frente, querendo que chegasse logo. E alguém, tinha fones no ouvido e um olhar apreensivo pra janela. Fechava os olhos e os abria logo depois. Parecia estar nervosa. O ônibus parou na esquina principal antes de pegar a estrada e cinco garotos entraram.Ela conhecia dois, embora não falasse com eles. E quando viu quem eram, simplesmente virou o olhar pros outros 3 que entravam pela porta.
Típicos garotos normais que vão á praia no verão curtir. Mas um deles era... Tentadoramente diferente. Ok, poderia até parecer igual á qualquer surfista que anda largado e que gosta de ouvir Jason Mraz. Tinha o cabelo meio comprido, escondido pelo boné. Tinha a pulseira verde, vermelha e amarela do Bob Marley que todo mundo tem. E tinha uma prancha de bodyboarding embaixo do braço. Mas ele, diferente dos outros garotos, olhou pros olhos dela. E ela correspondeu ao olhar.
Ele, não falou nada e se sentou na frente dela. Então, ela reparou em tudo nele. Olhos, bochecha, cabelo, voz, mãos, dedos, boca... E simplesmente sorriu com toda a idiotice de se encarar alguém tão profundamente. Mas continuou com os olhos seguindo cada traço dele que lhe era permitido ver. Reparou em como a boca dele meio aberta enquanto ele respirava lhe parecia incrivelmente convidativa. E encarou a boca dele até perceber o olhar dele em sua direção.
E aí ela reparou nos olhos dele. Verde ou marrom bem claro, não conseguiu ver direito, a luz do ônibus era meio apagada. Mas tinha certeza que eram claros, como o mar em toda quarta-feira de cinzas, ou como uma bala de caramelo. E quando ele olhou pra ela, os olhos dela encontraram a escuridão na janela e relâmpagos no céu. E suspirou, desejando mais que tudo que chovesse de uma vez. E voltando a olhar pra frente, percebeu as mãos dele estendidas, tocando a prancha, enquanto ele tamborilava os dedos parecendo impaciente.
E teve o tipo de coisa que só se tem em novelas ou em filmes de Hollywood. Teve um insight dos mais sem noção possível. Imaginou as mãos dele em suas costas enquanto seus dedos permeavam o cabelo macio. Imaginou aquelas mãos se fechando em sua cintura enquanto ela suspirava e fechava os olhos antes de juntarem os lábios. Imaginou ele sendo dela e ela sendo dele. E surtou porque esse tipo de coisa não acontece normalmente. E quando acabou, suspirou derrotada e virou o olhar de volta pras mãos dele. E percebeu que o olhar dele, caía sobre ela.
Então olhou pra frente e viu que tinha que descer. Levantou do assento, com “The Only Exception” tocando nos fones de ouvido e puxou o cordão que fez o sinal ecoar por todo o ônibus enquanto levantava e o esperava parar. E quando passou por ele, sentiu seu perfume favorito e sentiu o olhar dele queimando em suas costas. E quando desceu e parou no ponto, o seguiu com o olhar, até onde deu.
E depois, simplesmente seguiu em direção á sua casa, suspirando por ter sido por uma só vez. E que isso, talvez nunca voltasse á acontecer. Com quase um milhão de pessoas vivendo em uma cidade, as chances deles se verem, são praticamente inexistentes. Ou talvez não.
Esse texto é baseado na minha volta do Carnaval. Tudo bem que é "meio" sem sentido ser sobre o final e não o começo ou o meio, mas foi a coisa mais "intensa" que rolou. Então ..