quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Possuir, do latim machucar



Às vezes algumas pessoa surgem na sua vida.
Elas literalmente surgem. Aparecem do nada, saídas de momentos onde a nossa atenção não está ligada, momentos que julgamos não serem verdadeiramente dignos de lembrança.
Mas então elas vão conquistando, devagarzinho, espaço na vida da gente. Quando vamos perceber, elas se tornam importantes e pronto, já era, não tem mais como excluí-las.
Esse é  o problema: o ser humano é incapaz de se desapegar de alguém assim do nada. Eu sou, pelo menos. Ou a pessoa sai da minha vida por algum motivo particular ou ela continua firme e forte do meu lado.
Só que tem algumas pessoas que não se importam em ficar. São como... Aedes Aegypti, é! Eles vem, te picam, transmitem a doença (que nesse caso, metaforicamente, é o amor) e depois saem de fininho, deixando você pra trás pra lidar com as consequências da dengue - ou, metaforicamente, do abandono.
É por isso que eu sempre digo: "se você não vai ficar, então não começa a se aproximar". Ta, eu não digo sempre. Mas eu gostaria muito de dizer - e também deveria, porque a porcentagem de chegadas e partidas repentinas na minha vida cresceu de forma significativa nos últimos tempos. E isso é ruim, porque as pessoas vão embora e me deixam aqui pra lidar com a perda. Não é difícil depois que eu localizo que, se ela não quis ficar, eu não era importante pra ela e, como diz meu pai, "ela não me merecia". Só que isso ocorre e eu percebo que quando ela se foi, levou um pedaço meu com ela - e eu vou ficar com esse rombo pra sempre. A pior parte é que essas chegadas e partidas são cumulativas. As pessoas chegam, me conquistam, vão embora e levam com elas um pedaço meu que nunca mais vai se reconstituir. Existem milhares de pedacinhos meus espalhados por aí, mas ninguém liga pra minha fragilidade.
É injusto porque ninguém deveria ter o direito de possuir partes alheias como se fosse um souvenir. Como se ela tivesse ido á Paris e comprasse na lojinha de souvenires que fica em algum lugar da torre Eiffel uma torre Eiffel em miniatura pra levar um pedaço de Paris consigo, mesmo que isso não fosse causar danos á torre original. A verdade é que não somos torres de metal de 324 metros de altura, sendo assim, esses souvenires que as pessoas carregam nos causam danos.
As pessoas simplesmente não tem esse direito.
É por isso que eu não julgo quem adere a campanha "Coração no modo avião".
Essas sim são pessoas inteligentes.